home       domingo, 30 de abril de 2017

 

O poder da credibilidade
"Até onde entendo, todo mundo quer associar sua imagem e a de seus produtos à credibilidade, confiança e, está claro, os veículos tradicionais seguem demonstrando isso todos os dias." (Artigo do sr. Roberto Duailibi, membro do Conselho de Curadores da FUNCEB para o jornal Valor Econômico)

De uns tempos para cá, virou moda falar mal das chamadas mídias tradicionais, impressos e meios eletrônicos, representados pelos jornais e revistas e pelo rádio e pela televisão. A chegada dos meios digitais, sobretudo sites, blogs e redes sociais, ofereceu ao segmento de mídia um verniz de suposta modernidade. Na verdade, no começo, imaginou-se poder “estar no ar” por um custo muito inferior ao da televisão. De repente, todo mundo quer estar no lado digital, sob pena de ser considerado ultrapassado. O que ninguém pode ignorar, contudo, é que na hora H, no momento em que se precisa de veículo com credibilidade de verdade, que passe as mensagens, que funcione, são os jornais, revistas, rádio e televisão que cumprem melhor esse papel. O episódio da carne e seus derivados está aí como um case pronto nesse sentido.

Desde a deflagração da operação Carne Fraca, de forma totalmente atabalhoada e, diga-se, errada desde a escolha do nome e sem nenhum planejamento quanto às consequências, são os veículos tradicionais que estão fazendo o melhor papel, seja na divulgação de comunicados oficiais, seja na cobertura do assunto, colocando nos eixos as informações e passando a real situação para a população.

O que se busca, afinal, neste momento, é colocar os pingos nos ís, é acalmar as pessoas, mostrando que não se pode julgar todo um segmento dessa relevância por conta da ação de poucos fiscais e alguns frigoríficos. As pautas têm sido corretas no sentido de mostrar que houve um espetáculo midiático, tentaram potencializar a ação policial e deram um tom muitas vezes acima da realidade dos fatos. O resultado, ainda que esteja havendo tentativas de corrigir as coisas, é que o Brasil perderá mercados, recursos e levará muito tempo para voltar à normalidade nesse segmento. Um prejuízo incalculável.

Enquanto a chamada grande mídia busca esclarecer, situar a crise, dar sua real dimensão, o que se viu e se vê nos meios digitais, sobretudo nas redes sociais, é uma generalizada bagunça, um festival de piadas de mau gosto, de situações forçadas que em nada contribuem para resolver o problema. Pior, se veiculam coisas sem checagem, inverdades, fake news, que só alimentam preconceitos, ódio e radicalismos.

Do ponto de vista técnico, pode-se até criticar o tom dos comunicados, pode-se falar da falta de um líder neste momento tão importante, alguém que tivesse ao mesmo tempo credibilidade e conhecimento suficientes para fazer a defesa do setor pecuário de corte e suas vertentes e a coragem de criticar a maneira como foi divulgada a operação. Faltou também um pouco mais de elaboração de motivos. Os comunicados se empenharam apenas em falar de confiança, de garantia, dos anos que atuam, no abastecimento regular. Esqueceram de falar na falta de registros negativos, no fato de que a inspeção, sobretudo externa, também é feita pelo comprador na recepção do produto, que o Brasil não chegou a ser o maior produtor mundial à toa, que a todo instante o País recebe comitivas internacionais dispostas a verificar in loco as condições de produção, de abate, de armazenagem, de transporte. Sem falar nos controles fitossanitários.

Tudo isso, no entanto, ainda que elevasse o nível de firmeza das mensagens, acabou passando despercebido diante do fato de que o setor, mesmo de maneira plural, sem nenhuma coordenação no que se refere às ações, reagiu e fez chegar às pessoas a mensagem de que é preciso acreditar que esses fatos ocorreram de forma absolutamente isolada. Que a população pode continuar consumindo e confiando na carne e seus derivados. E o que é mais interessante, os meios usados para se atingir esses objetivos foram justamente os tradicionais -- rádio, televisão, jornal e revista.
Esse negócio da comunicação é bastante curioso. Nele ocorrem fenômenos que as pessoas custam muitas vezes a encontrar uma explicação lógica. Se eu dissesse que seria feita hoje uma pesquisa sobre credibilidade dos veículos, certamente a maioria já teria as respostas na ponta da língua: apostaria num resultado baseado na preferência pelas redes sociais e mídias digitais. Para estes, cabe aqui ressaltar a informação de que em janeiro uma pesquisa do Ibope já mostrava a elevada credibilidade dos veículos tradicionais.

O levantamento foi encomendado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência e mostrou que os jornais se mantêm na liderança como o meio mais confiável, com 58%. As pessoas informaram que confiam muito ou sempre nessa mídia, contra 53% do mesmo levantamento feito um ano antes. Ou seja, a credibilidade do meio mais tradicional, no caso o jornal, se elevou em um ano 5 pontos porcentuais. No caso de TV e rádio, que aparecem na sequência, 54% e 52% das pessoas disseram terem plena confiança nesses veículos.

A mesma pesquisa mostra que a desconfiança segue alta em relação a algumas mídias: 71%, 69% e 67% confiam pouco ou nada no que leem, respectivamente, em redes sociais, blogs e sites. Esses resultados mais que ratificam minha afirmação inicial neste artigo, de que na hora em que se precisa da força de um veículo para falar com a população e que tenha credibilidade suficiente, não há como relativizar, jornais, revistas, TV e rádio continuam sendo as melhores saídas.

Esse modelo deveria seguir sendo usado como case e como demonstração prática também para as ações de mídia do dia a dia. Se a maioria das empresas, instituições e governos anunciam buscando na realidade convencer as pessoas com suas mensagens, me parece claro que deixar de alocar verbas nesses veículos é uma atitude no mínimo estranha. Até onde entendo, todo mundo quer associar sua imagem e a de seus produtos à credibilidade, confiança e, está claro, os veículos tradicionais seguem demonstrando isso todos os dias. No caso da carne, além dos primeiros resultados indicando que felizmente as coisas retornarão à normalidade, fica a impressão de que esses veículos seguirão como as principais armas a serem usadas na hora em que é necessário falar forte.

Roberto Duailibi é publicitário, fundador da lendária DPZ Propaganda, membro da Academia Paulista de Letras e do Conselho de Curadores da Fundação Cultural Exército Brasileiro.

VOLTAR
Associação Comercial de SP Associação Comercial de SP DPZ FIAT ITAÚ

INSTITUIDORES E PARCEIROS                    LINKS                    TEMPO                    MAPA DO SITE
© Fundação Cultural Exército Brasileiro. Todos os direitos reservados.  Criação FamilySites